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Marcelo Nova


RESENHA: SESC BELENZINHO, SÃO PAULO/SP, 1 DE AGOSTO DE 2014

Uma ideia que particularmente me agrada muito é a do artista executar na íntegra seus álbuns clássicos. A maneira que a música passou a ser consumida veio destruindo o conceito de álbum, os audiólogos do momento, com seus fones de ouvido, sentados no fundo do ônibus vivem a cultura das melhores. "Você gosta do Marcelo Nova?, ah, eu tenho as melhores dele", é o que dizem. E quem elege essas melhores, é melhor nem saber.

Um álbum representa mais do que um conjunto de músicas reunidas num objeto esférico, com um orifício no meio. Um álbum retrata um momento, representa parte do que o artista pensava naquele período, mostra um pouco do que sentia e do que queria dizer, como e com quem tocava. E quanto mais sólida for sua construção, maior sua capacidade de levar a fotografia de um momento para além do seu tempo, transformando-se naquilo que chamamos de atemporal. E você pode traduzir tudo isso que acabei de dizer com apenas 4 palavras: A Panela do Diabo.

Marcelo Nova aproveitou os 25 anos do álbum que gravou com Raul Seixas, para realizar esse show especial no Sesc Belenzinho, celebrando o aniversário do que pra mim é o mais importante disco do rock brasileiro. E lá fomos nós, revisitar esse velho conhecido.

Os ingressos se esgotaram em poucas horas, e os privilegiados que garantiram seu lugar foram saudados por Marceleza e seu Conjunto (Drake Nova - guitarra, Leandro Dalle -baixo e Célio "Cadilac" Glouster - bateria), que começaram os trabalhos com Be-Bop-A-Lula, canção que abre o Panela numa espécie de vinheta somente com as vozes de Marcelo e Raul, mas que ao vivo deixou Gene Vincent falando sozinho, e com sangue nos olhos foi abraçar Vincent Price.

Rock n´Roll veio para mostrar que não haviam cartas na manga, todas armas seriam logo postas sobre a mesa. Logo de cara tivemos um solo de baixo, e um espancamento de bateria, sucedidos por um solo de guitarra com um timbre envolvente. Aliás, além de grande guitarrista, Drake tem muito bom gosto e ousadia para inovar e surpreender nos sons que produz. Eu nunca vi Beethoven, Bach, Stravinsky, Vivaldi, nem Villa-Lobos fazer aquilo que Raul e Marcelo fizeram.

Se surpreendeu quem percebeu que a sequência das canções não obedeceria a ordem que temos no Panela. Mas logo lembramos que Marcelo Nova nunca obedeceu ordem nenhuma, nem de pai, nem de polícia, nem de mulher (agora arrumei confusão...), não seria ordem de disco que iria obedecer. Então mandou Você Roubou Meu Vídeo-Cassete, embalado pra presente num outsider blues, pesado e lento. Na sequência, Best Seller num medley com Câimbra no Pé.

O rei do rock falou que não fez nenhuma celebração quando A Panela do Diabo fez 5, 10, 15 ou 20 anos. Chegando aos 25, disse que era melhor fazer, para não correr o risco de ter que comemorar no crematório da Vila Alpina. Carpinteiro do Universo, principal single do álbum chegou à seguir.

Mergulhado nessa panela, passei a pensar se éramos capazes de identificar qual frase foi escrita por Marcelo, qual verso foi escrito por Raul? Quais são as palavras de Marceleza contida em cada canção? Quais são de Raulzito? De certo mesmo temos o fato de que 2 das canções do Panela não são creditadas à essa parceria. E era hora de se deparar com a primeira delas, Nuit, escrita por Raul e Kika Seixas. Como Marcelo a interpretaria? A resposta à essa pergunta foi pra lá de sensacional, ele deixou o palco para seu conjunto executar uma versão instrumental. Eu poderia jurar que vi um vulto de Raul sorrindo ao fundo, mas pode ser apenas um dos centenas de raulzitos da plateia, que a cantaram em uníssono, assumindo o posto do seu ídolo, que com o nascer do Panela, nos deixou.

Século XXI foi apresentada numa versão próxima da original, precedendo a outra canção que não é creditada à dupla. Quando Eu Morri exemplifica o que Raul foi buscar quando bateu à porta de Marcelo. Ele não procurava um discípulo, não procurava um seguidor, não procurava um clone, não procurava um continuador. Por de trás daquela porta de madeira escura, o homem que atendeu o chamado foi o escolhido única e tão somente por ser Marcelo Drummond Nova.

Banquete de Lixo veio em medley sentada no banco de trás, ainda limpando o rosto do sangue que Quando Eu Morri ainda deixara no ar.

A primeira parte do show se encerrava com Pastor João e a Igreja Invisível, e o que começou como panela, aquela altura já era um caldeirão fervendo e borbulhante.

Cabe destacar que a qualidade do som estava fantástica. E o responsável por manter tudo em constante ponto de fusão foi Coto Guarino, homem de confiança de Marceleza para operar seu som ao vivo, tendo realizado inúmeras gigs com o rei do rock, incluindo o Lollapalooza.

O que deveria ser um bis, foi, mas sem tirar de dentro. A sempre atual Não Fosse o Cabral mostra um pouco da capacidade de síntese e de se comunicar em todos os níveis do mestre Raul. "Falta de cultura pra cuspir na estrutura", resume 500 anos de história do país. Em seguida, Marceleza mandou Cocaína canudo à dentro. E por falar em história, Aluga-se deu mais uma aula, e mais uma chance pra quem ficou de recuperação.

Em Hoje, Marcelo Nova já se despedia do público. E depois dela anunciou a primeira canção que compôs com Raulzito. Muita Estrela Pouca Constelação, escrita já no primeiro momento em que Marcelo aquela porta abriu.

No distante 1989 Raul e Marcelo realizaram 50 shows, dos quais assisti à um deles. Nunca vi nada parecido, nem verei novamente. A aura em torno do local era inacreditável. A cada dois passos que você dava havia uma roda com um violão, e os garotos cantando. Uma atmosfera densa, não parecia que tinham vindo para um show, era uma peregrinação, havia um caráter quase religioso no ar. Uma névoa acortinava nossa visão, e naquele instante não tínhamos a dimensão de assistir a história escrita à nossa frente.

25 anos depois já somos capazes de dissipar essa névoa e ver tudo com mais clareza. O encontro desses 2 gênios, o alinhamento desses 2 astros, possui a mesma grandeza e o equivalente em megatons de outros encontros como Jagger/Richards, Plant/Page, Lennon/McCartney, Tyler/Perry. A diferença entre a dupla Seixas/Nova para essas duplas citadas é que o resto do mundo não a conhece. E sobre isso, carinhosamente posso dizer, foda-se o resto do mundo.

"E antes que eu me esqueça, 'honey darling', é melhor desligar".

SET LIST

Be-Bop-A-Lula (Gene Vincent & His Blue Caps cover)

Rock n' Roll

Você roubou meu vídeo-cassete 

Best Seller (Medley com "Câimbra no Pé")

Carpinteiro do universo

Nuit (Raul Seixas cover) (Instrumental)

Século XXI

Quando eu morri (Medley com "Banquete de Lixo")

Pastor João e a igreja invisível

2º Set

Não fosse o Cabral (Raul Seixas cover)

Cocaína

Aluga-se (Raul Seixas cover)

Hoje

Muita estrela pouca constelação



Escrito por Xande Campos Capitão às 16h37
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Escrito por Xande Campos Capitão às 22h07
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